José Pio Martins
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Em linguagem corrente, as palavras “solidariedade e generosidade” são usadas como
sinônimos perfeitos, basicamente como sendo a virtude de apoiar e ajudar os outros, isto
é, uma virtude moral representada pela ação de fazer o bem. Porém, no rigor da Filosofia,
em primeiro lugar, e no campo das teorias econômicas, em segundo lugar, essas duas
palavras têm sentidos algo diferentes.

As duas palavras orbitam o campo de nossos atos relacionados a terceiros, pois não
há que falar em solidariedade nem generosidade sobre a ação humana realizada sem a
presença de outro ser humano. Quando Robinson Crusoé, personagem do romance que
leva seu nome, se viu sozinho na ilha, após naufragar, nenhuma ação dele tinha relação
com a ética nem com solidariedade ou generosidade.

O problema da ética somente se impõe a alguém à medida que outro ser humano
esteja presente. Eventualmente, pode-se falar em comportamento ético na relação com
animais irracionais, no sentido de não lhes fazer qualquer mal, porém a ética em sua
expressão maior diz respeito à relação de um humano com outro humano, individual ou
coletivo.

Crusoé podia andar nu pela ilha, caçar, pescar, gritar, xingar, dormir, acordar e agir na
luta por sua sobrevivência sem a presença do componente ético. Um belo dia, um
indígena de nome Sexta-Feira surge na ilha, Robinson Crusoé avista o novo habitante e,
assustado, começa a se fazer perguntas.

Devo me aproximar? Devo me vestir? Devo estender-lhe a mão? Falo primeiro ou
espero que ele se apresente? Ofereço-lhe ajuda ou espero que ele peça? A presença de
outro ser humano na ilha fez surgir o problema da ética, para o qual o simples ato de nada
fazer e não tomar conhecimento da existência do outro é uma atitude de natureza ética.

Neste ponto, vale uma palavra sobre a distinção entre ética e moral. Simplificadamente,
moral é a lista de condutas consideradas boas e corretas. Ética é a ciência que estuda
por quais razões aquelas condutas são consideradas corretas.

A distinção entre solidariedade e generosidade começa pelo aspecto moral. A
generosidade existe quando agimos levando em conta os interesses do outro, mesmo
que não concordemos com ele nem compartilhemos de seus interesses, a exemplo de
quando faço uma doação a alguém e nenhum proveito tiro dessa atitude. Ajuda
desinteressada: generosidade.

Por outro lado, se eu pratico um ato levando em conta os interesses do outro porque
compartilho deles (os interesses) e concordo com ele (o outro), a ação é boa para o outro
e, simultaneamente, boa para mim também. Ação boa, mas interessada: solidariedade.
Há muitos exemplos em que a solidariedade é socialmente útil e atende os interesses de
todas as partes envolvidas.

Se faço seguro de meu carro e sofro um acidente com perda total do veículo, a
seguradora me paga a indenização no valor do bem. Mas a seguradora somente me paga
porque, na prática, milhares de pessoas se cotizaram para me indenizar. Generosidade?
Não, nenhuma. Eu apenas fiz seguro na mesma companhia dessas pessoas, todos
contratamos uma apólice de seguro por interesse, não por bondade. Ação boa, mas
interessada: solidariedade.

Outro exemplo é a Previdência Social. Pagamos contribuição mensal, para um fundo
que custeia as aposentadorias dos outros, hoje. Não o fazemos por generosidade.
Fazemos por interesse, pois, completado nosso tempo, os trabalhadores do futuro
pagarão nossa aposentadoria. É o que os economistas chamam de “solidariedade entre
gerações”.

O filósofo André Comte-Sponville afirma que a generosidade é uma virtude moral e a
solidariedade é uma virtude política. Ambas são úteis, mas ele propõe uma questão: O
que é melhor? A solidariedade ou a generosidade? Moralmente, é a generosidade, porque
ela é desinteressada. Mas, socialmente e economicamente, a solidariedade é mais eficaz.
Se dependesse de generosidade, o INSS não existiria.

É normal da natureza humana ser egoísta, no sentido de que cada um defende seus
interesses. No caso do seguro em grupo, ninguém paga para proteger os outros, todos
pagam para proteger a si mesmos e, por isso, todos são protegidos. Essa é a lógica por
trás dos planos de saúde.

A solidariedade de grupo é notável e útil, pois ela não pede ao ser humano para ser
bondoso (benevolente); pede apenas que ele seja inteligente e proteja seus próprios
interesses. Esse princípio está na base estrutural do capitalismo e na base de seu triunfo.

Como bem explica Adam Smith em uma passagem magistral, não é da bondade do
padeiro e do açougueiro que devemos esperar nosso jantar, mas da defesa que eles
fazem de seu próprio interesse, como não é de nossa bondade que eles obterão seu
sustento, mas da defesa que fazemos de nosso interesse.

Dois egoísmos… que convergem para o bem comum. A generosidade, por sua vez, é
mais rara, pois a ajuda desinteressada exige grandeza humana e o desejo de ajudar o
outro, sem nada pedir.