Lorena Nogaroli
(Foto: Andrea Román/Pexels)

No momento em que eu embarcava de Londres para Guarulhos, no aeroporto de Heathrow, na noite da última terça-feira, 11, uma notícia me chamou a atenção: o aeroporto de Luton (LTN) estava em chamas. Localizado a cerca de 50 km ao Norte do centro de Londres, Luton é um dos aeroportos mais movimentados do Reino Unido e da Europa. Ele serve como base para diversas companhias aéreas de baixo custo e oferece voos para inúmeros destinos nacionais e internacionais, atendendo mais de 13 milhões de passageiros anualmente.

O incêndio começou no terceiro andar do recém-construído estacionamento do Terminal 2, por volta das 21h. O fogo se espalhou rapidamente, atingindo outros andares do estacionamento, que foi engolido pelas chamas e desabou parcialmente. Mais de 100 bombeiros trabalharam por 12 horas para conter o incêndio. Estima-se que entre 40 e 50 mil passageiros tenham sido afetados devido a 273 voos suspensos, cancelados ou desviados. Além disso, cerca de 1.500 veículos foram danificados.

Alerta dos bombeiros

O incidente aconteceu exatamente um mês após um incêndio no aeroporto de Sydney, na Austrália, dia 11 de setembro, provocado por uma falha na bateria de um veículo elétrico (EV). Bombeiros australianos emitiram um alerta, afirmando preocupação com a possibilidade de serem “sobrecarregados” por conta do aumento do número de ocorrências semelhantes envolvendo baterias de carros elétricos. Com isso, surgiram rumores sobre a possível causa do incêndio em Luton, o que gerou debates sobre a segurança dos veículos movidos a eletricidade.

Apesar dos investigadores britânicos terem descartado a possibilidade de o incêndio ter sido causado por um superaquecimento de um veículo elétrico no estacionamento, a população está realmente preocupada com os riscos associados a esse tipo de transporte.

Riscos dos carros elétricos

Os dados do Tesla Fire revelam que 204 veículos elétricos da montadora pegaram fogo em todo o mundo desde 2013, resultando em 71 mortes. Apesar desses incidentes e da percepção de um aumento de casos por parte dos bombeiros, incêndios com EVs não são frequentes. A Tesla afirma que carros movidos a gasolina têm 11 vezes mais probabilidade de pegar fogo do que os veículos elétricos. Além disso, um relatório da Auto Insurance EZ mostra que os veículos elétricos são menos propensos a pegar fogo em comparação com os modelos a combustão, híbridos e movidos a gás.

Porém, um estudo da Universidade do Tennessee indica que incêndios em carros elétricos são mais comuns do que em carros a gasolina. Também, uma pesquisa conduzida por pesquisadores da Universidade da Califórnia-Irvine revela que os incêndios em carros elétricos são responsáveis por aproximadamente um terço de todos os incêndios em automóveis nos Estados Unidos. Essas descobertas podem ser alarmantes, já que os EVs ainda representam uma parcela relativamente pequena do mercado global de veículos.

Vindo de uma família especializada em incêndios, o assunto permeou a conversa familiar assim que cheguei de viagem. Meu pai, conhecido como Coronel Nogaroli, engenheiro civil e oficial aposentado do Corpo de Bombeiros do Estado do Paraná (CBPR), explicou que a maioria dos carros elétricos utiliza baterias de íons de lítio, que podem queimar por horas e ser extremamente difícil para os bombeiros resfriarem. “Os incêndios em baterias de íon de lítio em carros elétricos são significativamente mais difíceis de apagar do que os incêndios em outros tipos de veículos, e a maioria dos bombeiros não está familiarizada com a forma de apagar incêndios em veículos elétricos, uma vez que os carros elétricos são relativamente novos”. Segundo o Coronel Nogaroli, as probabilidades de incêndio nesse tipo de veículo são maiores quando há sobrecarga na bateria e altas temperaturas, um risco com o qual os proprietários de carros a gasolina não precisam se preocupar.

Desvio de foco do verdadeiro problema

Mas foi o meu irmão, José Renato Nogaroli Filho, CEO da Nogaroli Engenharia, especialista em projetos de prevenção de incêndio, que chamou a minha atenção para o verdadeiro risco que transformou o aeroporto de Luton em um verdadeiro inferno na última terça-feira.

O incêndio, que teve início quando um carro a diesel sofreu uma falha elétrica ou vazamento na linha de combustível, se espalhou e alcançou vários veículos elétricos estacionados no local, em um efeito dominó. Mas, segundo Nogaroli Filho, o estacionamento, inaugurado em 2019 como parte de um projeto de modernização de £ 20 milhões (aproximadamente R$ 130 milhões) do aeroporto inglês, não tinha sprinklers. “Os sprinklers são equipamentos de combate a incêndio geralmente instalados nos tetos ou paredes de edificações e lembram um minichuveiro. Por possuírem alta sensibilidade ao calor, atuam imediatamente no incêndio, evitando a propagação do fogo e extinguindo o incêndio de forma rápida e automática”, explica.

De acordo com ele, os sprinklers deveriam ser obrigatórios em um aeroporto e poderiam ter contido o incêndio em Luton antes que o fogo atingisse os demais veículos. “É importante ressaltar que um incêndio massivo pode ocorrer, atingindo temperaturas superiores a 1.000°C em menos de 22 segundos. Além disso, em ambientes fechados, ele pode criar uma atmosfera explosiva. A projeção de partículas e a geração de toxinas, algumas invisíveis a olho nu, representam um desafio adicional”, ressalta.

A lição que podemos tirar do incidente é que, para garantir a segurança em locais com carros elétricos e carregadores, medidas de prevenção são cruciais. “A prevenção é a chave para garantir que a transição para veículos elétricos seja segura e eficiente. Ainda assim, a compreensão das complexidades envolvidas nessa tecnologia é essencial para todos os envolvidos”, finaliza Nogaroli Filho.

Veja aqui o vídeo das câmeras de segurança (CCTV) do aeroporto de Luton no momento em que o incêndio começou.